domingo, 28 de dezembro de 2008

George Lucas

Projecto, a partir de hoje, vidas cujo nome podia dar um filme. Tem tudo a ver com futebol com se verá no imediato. Começo com afirmações peremptórias e verdadeiras, apesar de não parecerem: George Lucas tem 23 anos. George Lucas nasceu no Brasil. George Lucas tem hoje em dia nacionalidade espanhola.
George Lucas não é realizador de cinema. Este George Lucas é jogador de futebol. É lateral direito do Celta de Vigo. Não será dos melhores na projecção de um qualquer episódio da Liga espanhola. Também não é dos piores. Começou a carreira no Grémio de Portalegre e no Brasil jogou ainda no Atlético Mineiro.

Gomes

A história acontece no princípio dos anos 80, na época a seguir à conquista da primeira Bota de Ouro. Pedroto é o treinador do Fc do Porto e a equipa chega ao intervalo de um jogo do campeonato a perder por um a zero. O treinador conhecido por Zé do Boné mal entra no balneário ao fim dos primeiros 45 minutos descarrega toda a ira do resultado negativo no camisola 9 do FCP. "Bota de Ouro? Qual Bota de Ouro? Tu!! Nem atilhos, quanto mais Bota! Vai tomar banho que vais sair!".
O raspanete deixa o grupo todo em silêncio. Pedroto regressa um pouco antes do início da segunda parte. Para dizer apenas isto: "Gomes, volta a equipar-te que vais jogar". Diz quem viveu o momento que ao fim de apenas cinco minutos o Porto já estava a ganhar por 2-1. Para Fernando Gomes, porventura sem culpa de nada, aquele foi um banho de humildade. Foi "o" exemplo para todo o grupo.

San Siro

Milano- Porta chiusa. Porta fechada. O jogo é mais um da fase de grupos da liga dos campeões. O estádio tem quase 83 mil cadeiras e não tem povo. Há bandeiras azuis e pretas. A do centro é a maior e diz TI AMO em branco garrafal. Deve estar a fazer, ou deve ter acabado de fazer um ano. Há apenas duas centenas de convivas VIP na bancada. Italianos e portugueses. O silêncio de um estádio vazio permite que se ouça quase tudo. Figo leva com o vernáculo dos compatriotas durante o jogo inteiro. Gente fina é outra coisa.
Do futebol, recordo o fim da monotonia. Queimada pelo fogo do golo do ano. Hugo Almeida, do meio da rua, com a bola parada, livre de preconceitos. O Inter empatou mais tarde. Quando o treinador que ficou a dever dinheiro ao clube recuou nas substituições até não poder mais. Saiu pela porta pequena. Uma metáfora do futuro.

Celtic Park

Glasgow- Estamos numa meia-final inédita, histórica, da taça UEFA. O Boavista joga com o Celtic em Glasgow e cerca de duas horas mais tarde, o FC do Porto recebe a Lázio nas Antas.Celtic Park nem é o nome própro do estádio, é uma alcunha que vem do tempo do campo antigo.
Estamos em Abril. A meio de Abril, em 2003, ao final da tarde na véspera do jogo. Sigo num táxi preto, destes novos, que agora são produzidos em série como os antigos. Por fora são à moda antiga, por dentro também, mas nas entranhas tudo é novo: o motor, a bateria, os depósitos de água, os cabos. Esta primeira visita é de reconhecimento, para saber onde fica o campo, a que distância fica, a quanto tempo fica do nosso moderníssimo hotel, o Radisson, acabadinho de inaugurar em Glasgow. Dou uma volta ao recinto, informo-me da entrada para a imprensa, do local onde se levantam as credenciais. Atravesso a imensa praça e dou um salto à loja do clube. A esta hora, ao final da tarde, já está fechada. A esta hora, neste lugar, deslocado 10 quilómetros, 5 minutos, do centro da cidade, não existe mais nada. Espero trinta minutos por um táxi que nunca há-de chegar para me levar de volta. Desito e vou a pé outros trinta minutos. Páro num posto de polícia. Explico a situação, chamam-me um táxi, espero mais cinco minutos, vou embora.
Estou agora no dia do jogo. Recordo o dia de ontem para dizer uma coisa que ainda não contei. Tem a ver com uma tradição muito, mas mesmo muito escocesa: as apostas. Eles apostam por tudo e por nada. Num jogo de futebol, em qualquer desporto, na próxima cidade do mundo onde vai cair um avião, nos dias que faltam até cair o governo de um qualquer país.
Quando acabo de pensar nisto tudo, já me encontro no interior do Celtic Park. Estou eu e estão mais sessenta mil pessoas nas bancadas. O que acontece a seguir é indescritível. A linhas que se seguem servem apenas para imaginar. Um homem com mais de 70 anos entra no relvado. Caminha de vagar, à velocidade das duas pernas amparadas por uma muleta. Entregam-lhe o microfone. O estádio grita histérico e logo fica em silêncio. Entra uma voz poderosa do fundo da alma. É do velho que mal caminha. Canta as primeiras letras do You´ll Never Walk Alone. Mais sessenta mil vozes vão atrás. É o momento mais intenso que vivo num estádio de futebol.
O Boavista empatou a um. Benificiou de um auto-golo e do facto de Henrik Larsson ter falhado um penalty. Duas semanas mais tarde o mesmo Larsson marcou no Bessa o golo que levou o Celtic à final. Nesse dia recordei estes dois momentos a Martin O´Neill, treinador do Celtic. Ele olhou para mim e antes de se levantar disse apenas isto: "it´s a strange old game, isn´t it?".
O resto é público: no final da época desportiva, Celtic encontrou o Fc do Porto em Sevilha. A Taça UEFA lá veio parar a esta cidade.

Careca

É o caso típico de um jogador que morreu à "nascença". Foi assassinado futebolisticamente por Sousa Cintra logo à chegada a Portugal, proveniente do Brasil. Com uma só tirada e entre uma passa no charuto: "É o novo Eusébio".Careca jogava (jogava é uma força de expressão) no meio com a função de apoiar (apoiar é outra força de expressão) o ataque. Jogou (outra força de expressão) também no Famalicão, clube que o Sporting colocou em tribunal, exigindo uma indeminização de um milhão de contos. Por causa de Careca.

Skuhravy

Exemplo mais-do-que-perfeito do jogador que passa a alfândega e entra em Portugal fora do prazo de validade. Tomas marcou 5 golos no Itália´90 e este cartão de visita depressa se transformou em visto de residência. Ficou seis anos no Génova e ainda hoje mantém o estatuto de melhor marcador da equipa na Série A, com 57 golos. Skuhravy veste a camisola do Sporting na fase decadente da carreira. Vive em Lisboa o princípio da reforma, regressa a casa no final da época e vai trabalhar para o Sparta de Praga

Bozinoski

Vlado Bozinoski. Nacionalidade: Macedónia. Carreira em Portugal: Sporting e Beira-Mar. Neste particular até se pode dizer que subiu na carreira. Foi de Lisboa para Aveiro. Na foto veste a camisola do Ipsiwh Town, clube onde Robson (Bobby) viveu os primeiros momentos de glória. Bozinoski é, ou pelo menos foi, sócio da Canadian 2-for-1 Pizza Soccer Academy. Bozinoski é mais um nome que ajuda a explicar o jejum de 18 anos do Sporting.

Okunowo

Esta peça à esquerda é recente, mas não deixamos por isso de estar diante de um dos maiores enganadores de todos os tempos no futebol ibérico. Primeiro no Barcelona (14 jogos com Van Gaal), depois no Benfica (9 jogos com Heynkes). Gbenga Samuel Okunowo. Deixou Lisboa rumo ao Ionikos da Grécia. Depois esteve no Dinamo de Bucareste. Enganou os romenos durante poucos meses e a seguir treinou sozinho em Esplugues, na Catalunha. Tem 27 anos e nas duas últimas épocas passou o tempo todo em casa, na Nigéria. Está no Shooting Stars de Lagos. O clube de onde tinha partido para Barcelona. Aos 17 anos perdeu a final da taça do campeões africanas para o Zamalek.

Rob Macdonald

Passagem da cor do fato por Portugal. Fez carreira em clubes de média grandeza europeia como o PSV Eindhoven e Newcastle. E o Sporting, no período experimentalista de avançados de qualidade dúbia durante os loucos anos oitenta. Também andou pela Turquia, no Besiktas. Apesar de ter sido ponta-de-lança, no papel, mais do que virado para a baliza, nasceu virado para a Lua. Mau jogador, virou treinador de insucesso. No De Grafschaap, da Holanda, experimentou o cargo e foi...despedido.

Katzirz


Bela Katzirz. Embabalado pelo acerto da escolha Meszaros, o Sporting foi à Hungria buscar mais um guarda-redes. O cromo aqui do lado foi um eterno suplente, perdão, um espectador atento e previligiado de Ferenc. Em Alvalade e na equipa magiar. Nasceu em 1957 em Budapeste. Internacionallizações: 22. Em 85/86 defendeu uma vez de leão ao peito. Esteve em Portugal numa altura em que estava na moda uma anedota, em forma de adivinha, com o seu primeiro nome: Bela. "A Bela perguntou por ti"... dizia-se, em jeito de meter conversa. O resto vocês sabem.PS: é do tempo dos poucos minutos de Paulo Futre nos seniores do Sporting.

Baroni

Ronald Baroni. Foi do Porto de Robson e passou pelas mãos de Mourinho. Sacrilégio. Tinha tanto de altura como de... falta de habilidade. Se tivesse ficado mais um anos teria sido útil na construção do Dragão. É um sério candidato ao prémio de pior ponta-de-lança de sempre do futebol português. Quando Baroni aterrou no aeroporto Francisco Sá Carneiro, ainda passou por um daqueles moços que toca flauta em grupo na rua de Stª Catarina. Teria feito lá melhor carreira. Corrido do FCP, levou uma chicotada psicológica, sim enquanto jogador, na Colômbia. O América de Cali tinha acabado de vencer a Copa Libertadores e o empresário - milagreiro, diga-se - lá impingiu o Baroni mais uma vez a um grande clube. Acontece que durante a época seguinte, com Baroni no ataque, o América bateu no fundo e chegou aos lugares de despromoção. O presidente despediu a dupla atacante, Baroni incluído. Encontrei apenas mais um registo deste autêntico case-study: no Melgar do Peru; ele que já tinha melgado no Porto. Teófilo Cubillas, um dos melhores jogadores de sempre do FCP deve ter corado de vergonha. Tudo por causa do desajeitado compatriota.
ps: Ronald Baroni teve 19 internacionalizações. fez quatro golos com a camisola do Perú. Já agora: Cubillas ainda é o melhor marcador do Perú.

Stéphane Paille

Francês. Do Bordéus para o Porto, no verão de 1990. O rapaz prometia: tinha sido campeão da europa de esperanças apenas dois anos antes. Foi o único título que conquistou em toda a carreira. Também em 1988, foi considerado o jogador do ano em França. Não vingou nas Antas em pleno período pós-Fernando Gomes. Saiu no final da época, voltou a França e fechou a loja sete anos mais tarde, na Escócia, ao serviço do Heart of Midlothian. É treinador do Racing FC, na zona baixa dos campeonatos nacionais gauleses.
ps: na imagem joga entre veteranos. Foi 8 vezes internacional A [de 86 a 89], marcou um golo pela selecção e nunca mais lá foi desde que se mudou para o Porto.

Érmison José Leopoldo

Jacaré pode não gostar de chupeta, mas andou por cá durante uns tempos a mamar no estádio do Bessa. Érmison José Leopoldo de seu nome foi o maior tiro no escuro do Boavista. Mário Reis, em privado lamentava a escolha. E dizia: "este não é o Jacagué que vi no bgasil. Não pode sêg".
Transferido em 1997 por 450 mil dólares, Jacaré foi a contratação mais cara do Boavista, veio rotulado de goleador e foi embora com o rabo entre as pernas.
Foi com o rabo entre as pernas e também de boca aberta, agarrado ao contrato que só expirava em 2001: "Se eu ficar sem jogar aqui no Brasil, o Boavista paga religiosamente meu salário". Uma notícia publicada na época num jornal brasileiro terminava assim, pela pena do jornalista: "Em um ano residindo em Portugal, ele conheceu vários países da Europa, entre eles, a Grécia, Itália, Austria, Romênia, Espanha e Alemanha".
Jogador com cartaz no Brasil, principalmente nos clubes de Santa Catarina - mais especificamente no Avaí - ainda antes da aventura no Bessa, Jacaré tinha tentado a sorte, em 1995, no campeonato da Malásia. A experiência foi curta. De volta ao brasil, atirou esta pérola: "Não sou chato na comida. Pra mim, um feijão com arroz e um ovinho frito tá bom demais. Mas o pouco que comi por lá foi de passar fome".

ps1: em Santa Catarina, Jacaré ficou também conhecido pelas peladinhas de benificiência com o amigo e tenista Gustavo Kuerten.
ps2: Jacaré chegou a jogar no Ajax... da Federação Catarinense de Futebol.

Peter Houtman

Ponta de lança Holandês. Pouca gente deu por ele, mas esteve no Sporting de Janeiro de 1987 a Novembro de 1988. Foram quase dois a passear por Lisboa e diz quem viu que em cada quinze dias passava pelo banco de Alvalade. Foi ao relvado 19 vezes e mandou o guarda-redes adversário ao fundo da baliza em três ocasiões. Passou, antes e depois, pelo Feyenoord, Groningen, Brugge, Sparta e Den Haag. Morreu para o futebol em 1993, no Excelsior, da Bélgica

Pontapé de saída

Servidor interactivo de futebol. Um vício com todas as letras. Também para os que acreditam no humor à primeira vista. Sucessor do blog "Auto-Golo", que aqui se recupra nos post´s iniciais.